Sra. Presidente Vânia Moreira Diniz, saúdo
por seu alto intermédio os demais membros da mesa, Senhores Acadêmicos,
familiares, amigos, senhoras e senhores presentes:
No seu discurso de posse na Academia
Brasileira de Letras, Jorge Amado afirmou: “Chego à vossa ilustre companhia com
a tranquila satisfação de ter sido intransigente adversário desta instituição,
naquela fase da vida, um que devemos ser, necessária e obrigatoriamente, contra
o assentado e o definitivo, quando a nossa ânsia de construir encontra sua
melhor aplicação na tentativa de liquidar, sem dó nem piedade, o que as
gerações anteriores conceberam e construíram.
Ai daquele jovem, ai daquele moço
aprendiz de escritor, que no início do seu caminho, não venha quixotesco e
sincero, arremeter contra as paredes e a glória desta Casa. Não seria ele digno
de sua maravilhosa condição se, em lugar de bandeiras de guerra e violentas
armas de combate aparecesse ante a Academia dobrando-se em curvaturas e
sorrisos, em aplausos e elogios, e alma vestida com o fardão acadêmico. Ah, não
seria um jovem, não estaria cumprindo com as inapeláveis obrigações de seu
tempo interior, com as exigências da sua mocidade. Faltar-lhe-ia o sumo da
agressividade, do não-conformismo, da necessidade de romper com o passado para
caminhar narota do futuro. Seria insosso como essas frutas colhidas ainda
verdes e, à força, amadurecidas para o mercado.”
Tenho certeza de que, ao ouvir essas
palavras, muitos dos senhores terão lembrado de um outro Jorge, o adorável
cardeal Jorge Bergóglio que se fez, recentemente o inspirador Papa Francisco,
que, ainda há poucos dias, em encontro com milhões de jovens de todo o mundo na
cidade do Rio de Janeiro disse.”Jovens, não fiquem na sacada da vida. Um jovem
que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a
utopia não é sempre negativa. A utopia é respirar e olhar adiante."
Um comunista de carteirinha, o amado de
todos nós, e um homem santo que todos aprendemos a amar, concordam que
juventude é ação, e que ação pode ser a do protesto; concordam que discordar é
um degrau importante da construção de uma sociedade justa, deuma literatura
maior e, emendo eu, de uma academia melhor.
De fato, quando recebi o honroso convite
da Professora Vânia Diniz para tornar-me acadêmico, o jovem em mim se assustou
muitíssimo e a seu modo me perguntou, “Então, você já está na idade de Academias?”
Superado o susto inicial, percebo que sim,
um pouco porque não sou mais o jovem inquieto da época da ditadura, iconoclasta
por ideal e profissão, e, outro pouco, porque a academia rejuvenesceu. Precisou
arejar seus sagrados recintos com o ar da modernidade e não só aprender a ouvir,
como a falar a voz do povo.
Mormente esta academia que hoje me abre
as portas eque tem como um dos lemas “Literatura é inclusão e
compartilhamento”. Esse é um lema cheio de atualidade e que transpira o sentimento
essencial da modernidade. Nenhuma academia poderia pretender-se mais jovem que
esta!
Então, queremos a juventude de nossa
pátria e dos tempos que vivemos imortais como nós.
Porém, o que é essa juventude e como ela
se afirma e se mostra?
Ao tentar responder essa pergunta quatro
nomes me instruíram: os nomes dos escritores escolhidos para patronos dos
quatro novos acadêmicos que hoje tomam posse.
Primeiro falou-me o patrono de Alice
Vieira Martins que, mesmo afirmando em seus 86 anos, já bisavó, que nós
envelhecemos com as palavras, não deixou de eleger para patrono o poeta mais
jovem de nossa literatura, Casemiro de Abreu, ele que nunca foi em vida mais do
que um jovem, uma vez que a morte o colheu com apenas 23 anos de idade,
deixando em nosso imaginário poético a imagem do mais precoce dos poetas e,
certamente, o mais doce e inocente de quantos a lira brasileira venha
despertar.
Pois esse mesmo Casemiro soprou-me ao
ouvido a primeira característica da juventude que esta academia precisa
cultivar e incentivar em todos nós, seus membros: a graça e a leveza dos
jovens, graça de quem parte para o futuro sem pesadas bagagens a atrasar a viagem
ou a chegada.
O segundo a falar-me foi Fagundes
Varela, patrono de Lolô Fonseca, apaixonada como toda paraense e que um dia foi
possuída pela música. Falou-me ele, Fagundes Varela que também morreu enquanto
ainda floriam os anos da juventude e cuja paixão foi a tônica de sua obra,
paixão pela vida, pelo amor e pelo filho que a morte lhe arrancou dos braços
por exigência da musa da poesia que,desse pai, desejava colher os versos cheios
de dor de Cântico do Calvário. A poesia é uma amante exigente, Deus quis
interromper o braço de Abraão por adivinhar a fé indomável do patriarca, não
assim a Poesia, capaz de fazer descer pesada a mão do destino para colher um
simples verso de dor. Pois essepoeta, trágico e cheio de certezas profundas,
como costuma ser a juventude, pede-nos uma academia cheia de paixão, paixão
furiosa, plena de certezas e impactos profundos, embebida no sentimento trágico
do mundo.
Também não deixou de vir ter comigo
Graciliano ramos, patrono de BasilinaPereira,escritora mineira que também já
tem nos braços três netos, sem que isso lhe sirva de desculpa para perder a
vitalidade de uma poesia que pode ousar versos que dizem: “Recuso-me a ler as
placas onde o letreiro afronta a minha direção. Eu acredito! E minha fé garante
a ousadia.”
Graciliano Ramos cuja obra sempre foi um
libelo pela justiça, cuja voz, às vezes de dentro do cárcere das ditaduras,
sempre esteve a serviço da revolução e da mudança, pede-nos uma academia que
tenha a ousadia de somar a voz a todos os protestos que a juventude faz agora
ecoar nas ruas.
Por último veio falar meu próprio
patrono, Fernando Pessoa, e veio em sua multidão de pessoas, com todas as suas muitas
vozes, lembrar que toda juventude é gregária, que a juventude repudia a solidão
como o alegria repudia o silêncio. Ele, solitário sem vocação, veio lembrar que
nada afasta mais um escritor da criação ativa que o silêncio da escrivaninha,
que o individualismo é mau conselheiro e crítico sem méritos.
De fato, tenho propugnado toda a minha
vida para que os escritores nunca se enclausurem nas paredes do conformismo e
nem se imortalizem nos dogmas de um estilo inquestionável, mas que saiam de
seus limites estreitos pelas portas largas do debate, do encontro com outros
poetas e escritores, com os leitores, com a vida que tanto tem a nos ensinar
sobre o valor da dialética e da multiplicidade.
Nada me causa mais repulsa que um escritor
trancado em soberba e autorreferência, quem não divide jamais multiplica. Quem
acumula sem repartir se diminui a cada dia até a extrema pobreza de seu próprio
ego mendicante de amigos.
Em minha dupla função de ator e escritor
aprendi com minha outra arte que um ator que não se expõe ao trabalho da oficina
é um profissional estagnado e sujeito ao desprestígio da classe. Oficina, esse
lugar onde se pratica um ofício e podemos nos sujar com as palavras, tropeçar
nas sintaxes e perder o fio do argumento e errarmos sem medo, onde de abrem os
mecanismos da arte ao reparo e ao debate, esse lugar sagrado de quem não se
acomoda na arte, mas se arrisca aos tortuosos caminhos do estilo. Sim, esse
espaço de culto à deusa humildade, porque o ator, bem como o escritor, quando
por cabotinismo, se torna um fã de si mesmo condena-se a se repetir eternamente
como um tolo.
Então, estar na academia não é desculpa
para o isolamento nem razão para o embalsamamento de si mesmo e da própria obra
no formol mal cheiroso da soberba.
Jovens seremos todos em qualquer idade
enquanto não desistirmos dessas quatro virtudes: pureza, paixão, revolta e
participação humilde na vida presente, mantendo sempre a sadia capacidade de
rir mesmo das ironias que a vida nos apronta de repente, como sagrar-nos
imortais justo ao lado de um cemitério.
Descobri, não sem sofrimento, que a
juventude não é um subproduto do pouco uso que já fizemos do tempo, porque há
homens novos que são velhíssimos, que repetem nas ruas o discurso estagnado de
dois séculos atrás, discurso que o próprio Marx já pronunciava cheio de
dúvidas, repete em velhíssimas palavras ou com práticas do antiquíssimo
vandalismo, jovens de idade que se esquecem da lição de Jorge Amado que quem
não se revê, quem não se reinventa, padece de uma doença incurável: a velhice
da alma! Por que há homens e uma mulher em especial,de 86 anos e bisavó, que
dizem palavras novíssimas embebidas na melhor juventude das ideias: “nada serve
inventar palavrasquando as palavras que inventamosnão passam de frágeis lugares
de exíliodos gestos inventados fora de horasdelimitando o espaço de tantas
mortes prematurasde que jurámos ressuscitar um dia.”
Tenho visto jovens velhos, porque inflexíveis
e radicais oriundos departidos com pouco mais de vinte anos repetindo um
discurso esclerosado eassumindo a artrite moral e ética de novas oligarquias; mas tenho visto
idosos jovens, como o pastor de uma igreja de mais vinte séculos pregando
palavras novas, tenho visto jovens de alma como minha mãe aqui presente, que
nunca desistiram de ver e conhecer ideias novas, verdadeiros ginastas do
espírito e da mente, plenos de flexibilidade e paixão.
Então, tenhamos por definitivo que
juventude não é um dom gratuito dos relógios pouco usados, mas uma conquista
diária e eterna dos que pagam o alto preço do compromisso, da paixão, da
rebeldia, da amizade e do amor, esse dom mais que excelso de amar e se saber
amado.
Não, a juventude não é, como quiseram
nos vender outrora a ideia fácil e barata de que seria uma mera calça azul e desbotada, ao contrário,
a juventude está, como ensinou o cantor Belchior, em saber que “o que há algum tempo era novo,
jovem, hoje é antigo e precisamos todos rejuvenescer, porque o passado é uma
roupa que não nos serve mais”.
E eis que, súbito, outro poeta me sopra
seus versos ao ouvido, o poeta maior Drummond, que diz sereno e jovem como as
manhãs de Brasília:
“Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus
companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes
esperanças.
Entre eles, considero a enorme
realidade.
O presente é tão grande, não nos
afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos
dadas.”
Poema vital, profissão de fé, como um conselho
a todos nós, para profunda inspiração e cuja força já vem de seu título: Mãos
Dadas!
Seja, então,nossa academia um espaço para
o encontro, seja esta academia a confiança do aperto de mãos, seja toda
academia um espaço de serviço ao próximo, de ensino das letras, de força para
suportarmos a dura solidão de sofrermos de poesia e de só podermos ter cura
pelo lenitivo dúbio da literatura.
Boa noite
Marco Antunes

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