sexta-feira, 23 de agosto de 2013



Sra. Presidente Vânia Moreira Diniz, saúdo por seu alto intermédio os demais membros da mesa, Senhores Acadêmicos, familiares, amigos, senhoras e senhores presentes:

No seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, Jorge Amado afirmou: “Chego à vossa ilustre companhia com a tranquila satisfação de ter sido intransigente adversário desta instituição, naquela fase da vida, um que devemos ser, necessária e obrigatoriamente, contra o assentado e o definitivo, quando a nossa ânsia de construir encontra sua melhor aplicação na tentativa de liquidar, sem dó nem piedade, o que as gerações anteriores conceberam e construíram.

Ai daquele jovem, ai daquele moço aprendiz de escritor, que no início do seu caminho, não venha quixotesco e sincero, arremeter contra as paredes e a glória desta Casa. Não seria ele digno de sua maravilhosa condição se, em lugar de bandeiras de guerra e violentas armas de combate aparecesse ante a Academia dobrando-se em curvaturas e sorrisos, em aplausos e elogios, e alma vestida com o fardão acadêmico. Ah, não seria um jovem, não estaria cumprindo com as inapeláveis obrigações de seu tempo interior, com as exigências da sua mocidade. Faltar-lhe-ia o sumo da agressividade, do não-conformismo, da necessidade de romper com o passado para caminhar narota do futuro. Seria insosso como essas frutas colhidas ainda verdes e, à força, amadurecidas para o mercado.”

Tenho certeza de que, ao ouvir essas palavras, muitos dos senhores terão lembrado de um outro Jorge, o adorável cardeal Jorge Bergóglio que se fez, recentemente o inspirador Papa Francisco, que, ainda há poucos dias, em encontro com milhões de jovens de todo o mundo na cidade do Rio de Janeiro disse.”Jovens, não fiquem na sacada da vida. Um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre negativa. A utopia é respirar e olhar adiante."

Um comunista de carteirinha, o amado de todos nós, e um homem santo que todos aprendemos a amar, concordam que juventude é ação, e que ação pode ser a do protesto; concordam que discordar é um degrau importante da construção de uma sociedade justa, deuma literatura maior e, emendo eu, de uma academia melhor.

De fato, quando recebi o honroso convite da Professora Vânia Diniz para tornar-me acadêmico, o jovem em mim se assustou muitíssimo e a seu modo me perguntou, “Então, você já está na idade de Academias?”

Superado o susto inicial, percebo que sim, um pouco porque não sou mais o jovem inquieto da época da ditadura, iconoclasta por ideal e profissão, e, outro pouco, porque a academia rejuvenesceu. Precisou arejar seus sagrados recintos com o ar da modernidade e não só aprender a ouvir, como a falar a voz do povo.

Mormente esta academia que hoje me abre as portas eque tem como um dos lemas “Literatura é inclusão e compartilhamento”. Esse é um lema cheio de atualidade e que transpira o sentimento essencial da modernidade. Nenhuma academia poderia pretender-se mais jovem que esta!

Então, queremos a juventude de nossa pátria e dos tempos que vivemos imortais como nós.

Porém, o que é essa juventude e como ela se afirma e se mostra?

Ao tentar responder essa pergunta quatro nomes me instruíram: os nomes dos escritores escolhidos para patronos dos quatro novos acadêmicos que hoje tomam posse.

Primeiro falou-me o patrono de Alice Vieira Martins que, mesmo afirmando em seus 86 anos, já bisavó, que nós envelhecemos com as palavras, não deixou de eleger para patrono o poeta mais jovem de nossa literatura, Casemiro de Abreu, ele que nunca foi em vida mais do que um jovem, uma vez que a morte o colheu com apenas 23 anos de idade, deixando em nosso imaginário poético a imagem do mais precoce dos poetas e, certamente, o mais doce e inocente de quantos a lira brasileira venha despertar.

Pois esse mesmo Casemiro soprou-me ao ouvido a primeira característica da juventude que esta academia precisa cultivar e incentivar em todos nós, seus membros: a graça e a leveza dos jovens, graça de quem parte para o futuro sem pesadas bagagens a atrasar a viagem ou a chegada.

O segundo a falar-me foi Fagundes Varela, patrono de Lolô Fonseca, apaixonada como toda paraense e que um dia foi possuída pela música. Falou-me ele, Fagundes Varela que também morreu enquanto ainda floriam os anos da juventude e cuja paixão foi a tônica de sua obra, paixão pela vida, pelo amor e pelo filho que a morte lhe arrancou dos braços por exigência da musa da poesia que,desse pai, desejava colher os versos cheios de dor de Cântico do Calvário. A poesia é uma amante exigente, Deus quis interromper o braço de Abraão por adivinhar a fé indomável do patriarca, não assim a Poesia, capaz de fazer descer pesada a mão do destino para colher um simples verso de dor. Pois essepoeta, trágico e cheio de certezas profundas, como costuma ser a juventude, pede-nos uma academia cheia de paixão, paixão furiosa, plena de certezas e impactos profundos, embebida no sentimento trágico do mundo.

Também não deixou de vir ter comigo Graciliano ramos, patrono de BasilinaPereira,escritora mineira que também já tem nos braços três netos, sem que isso lhe sirva de desculpa para perder a vitalidade de uma poesia que pode ousar versos que dizem: “Recuso-me a ler as placas onde o letreiro afronta a minha direção. Eu acredito! E minha fé garante a ousadia.”

Graciliano Ramos cuja obra sempre foi um libelo pela justiça, cuja voz, às vezes de dentro do cárcere das ditaduras, sempre esteve a serviço da revolução e da mudança, pede-nos uma academia que tenha a ousadia de somar a voz a todos os protestos que a juventude faz agora ecoar nas ruas.

Por último veio falar meu próprio patrono, Fernando Pessoa, e veio em sua multidão de pessoas, com todas as suas muitas vozes, lembrar que toda juventude é gregária, que a juventude repudia a solidão como o alegria repudia o silêncio. Ele, solitário sem vocação, veio lembrar que nada afasta mais um escritor da criação ativa que o silêncio da escrivaninha, que o individualismo é mau conselheiro e crítico sem méritos.

De fato, tenho propugnado toda a minha vida para que os escritores nunca se enclausurem nas paredes do conformismo e nem se imortalizem nos dogmas de um estilo inquestionável, mas que saiam de seus limites estreitos pelas portas largas do debate, do encontro com outros poetas e escritores, com os leitores, com a vida que tanto tem a nos ensinar sobre o valor da dialética e da multiplicidade.

Nada me causa mais repulsa que um escritor trancado em soberba e autorreferência, quem não divide jamais multiplica. Quem acumula sem repartir se diminui a cada dia até a extrema pobreza de seu próprio ego mendicante de amigos.

Em minha dupla função de ator e escritor aprendi com minha outra arte que um ator que não se expõe ao trabalho da oficina é um profissional estagnado e sujeito ao desprestígio da classe. Oficina, esse lugar onde se pratica um ofício e podemos nos sujar com as palavras, tropeçar nas sintaxes e perder o fio do argumento e errarmos sem medo, onde de abrem os mecanismos da arte ao reparo e ao debate, esse lugar sagrado de quem não se acomoda na arte, mas se arrisca aos tortuosos caminhos do estilo. Sim, esse espaço de culto à deusa humildade, porque o ator, bem como o escritor, quando por cabotinismo, se torna um fã de si mesmo condena-se a se repetir eternamente como um tolo.

Então, estar na academia não é desculpa para o isolamento nem razão para o embalsamamento de si mesmo e da própria obra no formol mal cheiroso da soberba.

Jovens seremos todos em qualquer idade enquanto não desistirmos dessas quatro virtudes: pureza, paixão, revolta e participação humilde na vida presente, mantendo sempre a sadia capacidade de rir mesmo das ironias que a vida nos apronta de repente, como sagrar-nos imortais justo ao lado de um cemitério.

Descobri, não sem sofrimento, que a juventude não é um subproduto do pouco uso que já fizemos do tempo, porque há homens novos que são velhíssimos, que repetem nas ruas o discurso estagnado de dois séculos atrás, discurso que o próprio Marx já pronunciava cheio de dúvidas, repete em velhíssimas palavras ou com práticas do antiquíssimo vandalismo, jovens de idade que se esquecem da lição de Jorge Amado que quem não se revê, quem não se reinventa, padece de uma doença incurável: a velhice da alma! Por que há homens e uma mulher em especial,de 86 anos e bisavó, que dizem palavras novíssimas embebidas na melhor juventude das ideias: “nada serve inventar palavrasquando as palavras que inventamosnão passam de frágeis lugares de exíliodos gestos inventados fora de horasdelimitando o espaço de tantas mortes prematurasde que jurámos ressuscitar um dia.”

Tenho visto jovens velhos, porque inflexíveis e radicais oriundos departidos com pouco mais de vinte anos repetindo um discurso esclerosado eassumindo a artrite moral e  ética de novas oligarquias; mas tenho visto idosos jovens, como o pastor de uma igreja de mais vinte séculos pregando palavras novas, tenho visto jovens de alma como minha mãe aqui presente, que nunca desistiram de ver e conhecer ideias novas, verdadeiros ginastas do espírito e da mente, plenos de flexibilidade e paixão.

Então, tenhamos por definitivo que juventude não é um dom gratuito dos relógios pouco usados, mas uma conquista diária e eterna dos que pagam o alto preço do compromisso, da paixão, da rebeldia, da amizade e do amor, esse dom mais que excelso de amar e se saber amado.

Não, a juventude não é, como quiseram nos vender outrora a ideia fácil e barata de que seria  uma mera calça azul e desbotada, ao contrário, a juventude está, como ensinou o cantor Belchior,  em saber que “o que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo e precisamos todos rejuvenescer, porque o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

E eis que, súbito, outro poeta me sopra seus versos ao ouvido, o poeta maior Drummond, que diz sereno e jovem como as manhãs de Brasília:

“Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

 Poema vital, profissão de fé, como um conselho a todos nós, para profunda inspiração e cuja força já vem de seu título: Mãos Dadas!

Seja, então,nossa academia um espaço para o encontro, seja esta academia a confiança do aperto de mãos, seja toda academia um espaço de serviço ao próximo, de ensino das letras, de força para suportarmos a dura solidão de sofrermos de poesia e de só podermos ter cura pelo lenitivo dúbio da literatura.

Boa noite

Marco Antunes

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